P&D 2016

Olá pessoal, sei que faz um tempinho que não posto nada por aqui mas a correria está muito grande.

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Neste post que informar a vocês sobre a 12ª edição do P&D Design – Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design. Desta vez, os valorosos responsáveis pela realização deste que é o maior evento de pesquisa em Design nacional são o Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais em parceria com o Centro Universitário UNA.

O evento será realizado nos dias 4 a 7 de Outubro de 2016, na Rua Aimorés, 1451, Belo Horizonte/MG.

E olhem bem quem estará por lá apresentando um artigo que, modéstia às favas, foi aprovado sem qualquer alteração ou revisão:

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É isso mesmo, EU!!!

Vou apresentar meu artigo “O DESIGN APLICADO AOS AMBIENTES: REFLEXÕES E OBSERVAÇÕES SOBRE A NOSSA HISTÓRIA” no dia 4 às 16:30h.

Este artigo é fruto de anos de pesquisa sobre a história de nossa área profissional onde busquei confrontar a História distorcida e errada que aprendemos nas universidades com os lastros negligenciados ou esquecidos da prática do “design de espaços” através da premissa de que o Design de Interiores/Ambientes deve se preocupar com o melhor uso, destinação e redestinação dos espaços disponíveis.

Por enquanto não posso disponibiliza-lo por causa das normas do congresso. Mas assim que for liberado o colocarei aqui para vocês.

Super abraço,

Paulo Oliveira.

NDesign2016 / NParahyba

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Pois é pessoal!

E lá vou eu mais uma vez participar como representante de nossas áreas (Interiores e Lighting) de mais um NDesign, o N Parahyba, e claro, respirar por mais uns dias o maravilhoso ar nordestino!

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Como já devem ter visto, esse ano será realizado em João Pessoa, na Paraíba.

E esta será a VIGÉSIMA SEXTA EDIÇÃO!!!

Não você não leu errado: 26ª edição deste evento!!!

O NDesign é o Encontro Nacional de estudantes de Design, realizado a cada ano numa região diferente do País. Faz parte das ações do CONe Design (Conselho Nacional dos Estudantes de Design). É um baita evento organizado por estudantes (CONDe) locais com uma semana inteirinha de puro Design pra você se deliciar!

Tem muuuuuuuuuito conteúdo! Duvida?

Oficinas e SEPAs e SEPP , veja aqui.

Convidados, palestras e workshops, veja aqui.

E tem festas, parceiros, patrocinadores, alojamento, local do encontro e tudo mais que você precisa ou quer saber aqui ó.

Não estarei sozinho este ano na missão de representar o Design de Interiores. Tem também essa figura linda aqui:

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É a Margaret de Zorzi que também estará lá falando sobre o que amamos!!!

E pensa que acabou?

Nananinanão!!!

Ainda tem mais nomes de nossa área como convidados. Pena que ainda não posso divulgar os nomes. Só depois que CONDe Parahyba divulgar posso compartilhar.

Mas garanto que são grandes nomes!!!

E você? Vai ficar de fora?

Poxa, ainda não sabe o que é o NDesign?

Como assim nunca ouviu falar sobre este, que é o principal evento de Design do Brasil, em sua faculdade?

Coloque seu(a) coordenador(a) e professor(a) na parede e peça explicações.

Garanto que vale a pena cada suado centavo investido para participar!

Nos vemos no N?

O DESIGN APLICADO AOS AMBIENTES: UMA BREVE RELEITURA.

“A organização de cada historiografia em função de óticas particulares e diversas se refere a atos históricos, fundadores de sentidos e instauradores de ciências.” (CERTEAU, 1982, pp 35).

Os estudos sobre a Filosofia da História e também sobre a Escrita da História nos mostram que este é um conhecimento que vem sendo, desde sempre, sistematicamente escrito e reescrito de acordo com os interesses de grupos sociais. Fato é que hoje temos incontáveis versões da Bíblia, cada uma atendendo os interesses doutrinários de sua denominação onde vemos textos alterados, palavras inexistentes no período bíblico e que vem sendo inseridas e aplicadas em – e com – contextos distorcidos relativizando, assim, a história religiosa.

Para basear este artigo, utilizo o livro de MICHEL DE CERTEAU, A Escrita da história. Neste livro ele faz uma profunda análise histórica sobre como a ideologia religiosa se impôs e moldou a História ao mesmo tempo em que lutava contra as suas próprias contradições e inconsistências. É importante perceber como a difusão da história manipulada por um determinado grupo (ou uma determinada área profissional) pode levar a uma degradação progressiva da sua própria história, bem como, a falta de pesquisas e análises de possibilidades pode reforçar a idéia imposta de uma “história inexistente” sobre outros grupos (ou outras áreas profissionais), como é o nosso caso.

Digo isso, pois é comum vermos a História do Design de Interiores totalmente amarrada à História da Arquitetura. Não questiono isso já que, de maneira bem específica, estas duas áreas sempre estiveram realmente muito próximas e atuando juntas, uma completando a outra. Porém, apenas em sua relação no tocante ao elemento arquitetônico. Com isso, não podemos permitir que estas amarras cerceiem ou sirvam de barreiras para o nosso pleno exercício profissional.

Também não podemos pensar na História do Design de Interiores apenas por dados concretos relativos ao nosso País já que esta é uma profissão internacionalizada assim como todas as outras e que faz parte do cotidiano de qualquer pessoa direta ou indiretamente. Da mesma forma que não podemos acatar passivamente a história oficial que conhecemos. Ao aceitarmos este tipo de abordagem histórica eliminamos todos os lastros do “pensar o melhor uso dos espaços[1]” – um dos pilares de nossa profissão – claramente percebidos na História da humanidade.

Nesse sentido fica claro que diversos lastros históricos acabam sendo descartados, pois a “versão oficial” que nos ensinam desconsidera e/ou distorce elementos importantes para que a mesma passe a atender aos interesses destes grupos dominantes. Percebe-se que a História é marcada por um constante conflito entre a historiografia e a arqueologia. Com isso, não podemos descartar estas imposições ideológicas sempre alterando, omitindo, distorcendo aspectos, elementos e fatos importantes em benefício próprio. Tais detalhes, por vezes sutis e aparentemente sem grande relevância podem conter lastros importantes para a nossa história.[2]

“Certamente, em seu uso corrente, o termo história conota, sucessivamente, a ciência e seu objeto – a explicação que se diz e a realidade daquilo que se passou ou se passa. […] O próprio termo “história” já sugere uma particular proximidade entre a operação científica e a realidade que ela analisa.” (CERTEAU, 1982, pp 24).

Quando Certeau nos apresenta esta descrição, temos maior clareza de que os fatos retratados nas justificativas históricas que recebemos atualmente são carregadas de imprecisões – propositais – da realidade do passado. Não à toa percebemos um insistente avanço da área de Arquitetura sobre a área de Arqueologia, impondo às descobertas que “tudo contido no sítio é Arquitetura”. O mesmo fez a Igreja quando impôs a historiografia sobre a arqueologia para, através dos mitos e lendas que são a base de sua ideologia/doutrina – midraxes – como bem nos mostra Certeau quando, referindo-se ao trabalho do historiador, afirma que “como objeto de seu trabalho, a teologia se lhe apresenta sob duas formalidades igualmente incertas na historiografia; é um fato religioso; é um fato de doutrina.”[3]

Passivamente somos condicionados a pensar através de uma História “oficial” que nos é repassada pela academia, desde o ensino fundamental, e reforçada no ensino superior. É fácil aceitarmos passivamente a ideia de que a primeira habitação humana – as cavernas – é fruto da Arquitetura. Não há, ou se há não recebeu o devido reconhecimento, refutações sobre este fato, ao mesmo tempo em que percebemos o quão óbvio é que uma caverna não é um elemento arquitetônico por ser este, um espaço criado e construído pela própria natureza e não pelo homem. Vemos neste simples exemplo, o apoderamento de algo que não pertence àqueles que dele se vangloriam como se feitos históricos de sua área o fosse. Certeau, em uma nota de rodapé (3) explicando o termo “produção” utilizado por ele referindo-se à História, nos mostra que

Aqui como em muitos outros casos (cf. por “manifestação”, “aparição” e até por “ação”), uma pressão da linguagem corrente leva o sentido a se transformar do ato em seu resultado, do ativo do fazer ao passivo do ser visto, do gesto à sua imagem no espelho. Uma clivagem crescente entre a pesquisa e a vulgarização ocorre tanto na história quanto na teologia: as pesquisas tomam a forma de meios específicos e diferenciados por procedimentos próprios; mas, na sua “vulgarização”, a história e a teologia se tornam objetos de saber ou de curiosidade, distribuídos e impostos a um “público” de consumidores que participa cada vez menos da produção.” (CERTEAU, 1982, pp 24).

Mas o que aconteceria se os designers passassem a estudar e analisar o trabalho arqueológico buscando as pistas do início de nossas profissões? Certamente teríamos uma reviravolta na história da Arquitetura e do Design, pois muitas das teorias que conhecemos hoje como fatos incontestáveis podem ruir dando lugar a novos olhares multidisciplinares, o que reforçaria ainda mais a veracidade destes novos estudos.

“E se o sentido não pode ser apreendido sob a forma de um conhecimento particular que seria extraído do real ou que lhe seria acrescentado, é porque todo “fato histórico” resulta de uma práxis, porque ela já é o signo de um ato e, portanto, a afirmação de um sentido. Este resulta dos procedimentos que permitiram articular um modo de compreensão num discurso de “fatos”.” (CERTEAU, 1982, pp 35).

No entanto, percebemos que há um movimento tentando forçar a ideia de que o Design de Interiores surgiu como área recentemente e ligada apenas ao elemento arquitetônico, ou edificação. Podemos até levar esse argumento como verdadeiro se analisarmos sob a ótica educacional afinal aqui no Brasil, os primeiros cursos de formação oficiais surgiram apenas na metade do século passado com claros reflexos do pensamento da Bauhaus. Gropius[4], o responsável pela reformulação curricular desastrosa desta escola afirmou que

“Não obstante, o nosso objetivo mais nobre é o de criar um tipo de homem que seja capaz de ver a vida em sua totalidade, em vez de perder-se muito cedo nos canais estreitos da especialização”.

Com isso, essa renovação pedagógica proposta culminou com o fim dos ateliês independentes de prática das artes (escultura, pintura, artes manuais, musica, artesanato, etc) em meras disciplinas, consideradas como elementos inseparáveis da Arquitetura. Em outras palavras, seriam práticas que dependiam da Arquitetura para existir. Vale ressaltar também, como destaca Wolfe[5], que no inicio da Bauhaus, a vinda destes mestres-artesãos para a escola já havia sido planejada para que estes produzissem mais voltados para os interiores arquitetônicos que para a sua verdadeira função enquanto produtores de produtos variados. É claro que a intenção foi mais no sentido de “reinventar” a Arquitetura transformando-a em algo totalitário e acima de todas as outras áreas do que promover e integrar (interação/cooperação) as artes e ofícios.

O estilo Bauhaus na verdade era uma apropriação de movimentos artísticos que estavam ocorrendo no período com um viés do socialismo impregnado na época pelo cenário de destruição e esperança do pós-guerra[6].

Assim conseguimos entender como a ligação de nossa área com a Arquitetura é algo forçado e ilusório. Esta “amarra” que nos prende (no ideário acadêmico e de mercado) não passa de uma visão ufanista impregnada de considerações ditatoriais, reflexos da época em que a Bauhaus esteve operante[7], pouco antes de sua falência.

Adrian Forty[8] (2013), mais especificamente no capitulo denominado “O Lar”, retrata como eram pensados os espaços residenciais antes disso tudo. Foi no período concomitante à Revolução Industrial[9] (o início desta distorção) e após este, chegando aos dias de hoje, este pensar amarrado habita o imaginário sobre o conceito da área. Quando houve a Revolução Industrial, criou-se uma ideia de que o Design era algo que devia ser industrializado[10] e somente então a profissão de desenhista industrial foi considerada ou validada. Mas percebe-se que há aqui a mesma despreocupação com lastros históricos desta prática, incluindo alguns bibliográficos. As razões disso poderão ser compreendidas na mesma medida em que for acompanhando meu raciocínio sobre a nossa área.

Reescrevendo a nossa linha do tempo – reflexões e observações.

Desde o século XVIII este trabalho de desenvolver os ambientes vinha sendo realizado por tapeceiros e estofadores. Estes artesãos definiam os materiais, os revestimentos e as formas. Porém houve uma forte reação à incapacidade destes de fornecer móveis e projetos de decoração que atendessem aos novos conceitos e padrões morais.

Na época Vitoriana[11], estes padrões morais foçaram a separação entre o espaço de trabalho do espaço denominado “lar”. O primeiro destinado ao ofício e o segundo ficara reservado para o convívio familiar e social. Esta tendência levou a casa a contemplar aspectos diferenciados representados pela decoração e pelo design dos objetos inseridos nos diversos espaços da realidade urbana (externa) desvinculando, assim, a habitação do espaço de trabalho.

Isso nos mostra a visão, vigente até os dias atuais, de que o lar busca contrapor os espaços frios dos ambientes de trabalho[12]. Passaram a ser um espaço onde as energias dispensadas no labor diário poderiam ser recuperadas através da “paz” e do isolamento que este espaço passou a refletir: antes um ambiente múltiplo onde o trabalho, muitas vezes artesanal, e a convivência familiar dividiam os mesmos espaços, agora um ambiente íntimo destinado apenas à família e aos poucos convidados. Isso ficava claro observando as formas de se vestir nos dois ambientes.

“Desse modo, o lar passou a ser considerado um repositório das virtudes perdidas ou negadas no mundo exterior. Para as classes medias do século XIX, lar significava sentimento, sinceridade, honestidade, verdade e amor. Essa representação do lar compreendia uma dissociação completa de todas as coisas boas do mundo público e de todas as coisas ruins do mundo doméstico. Era transformar o lar em um lugar de ficção, um lugar onde florescia a ilusão. Essas condições de exclusão artificial de todos os sentimentos “ruins” do lar, combinadas a um ócio intelectual forçado, proporcionaram, como Sigmund Freud e Joseph Breuer observariam na década de 1890, o clima para a histeria, um dos males mais comuns das mulheres burguesas do século XIX.” (FORTY, 2013).

A partir de 1860 começaram a surgir manuais que ditavam padrões especiais de bom gosto, bem como reforçavam as funções sociais das mulheres que as levou a manter-se afastadas do mundo do trabalho (ao menos as burguesas[13]). Agora, além dos afazeres domésticos e das prendas[14] que deviam possuir como sinônimo de valorização pessoal, passam a ficar responsáveis pelo cuidado e pela decoração de seus lares. O marido traz o sustento e a esposa zela, mantém e renova a casa. Este cuidar aumentava o rol de prendas esperadas de uma mulher: definir os mobiliários, cores, texturas e objetos que comporiam os ambientes e elas, agora, até mesmo pintavam e empapelavam as paredes[15].

Tais manuais, em sua maioria, eram escritos por mulheres[16] que trabalhavam especificamente com esta área. No período de 1800, Rhoda e Agnes Garret eram decoradoras e diretoras de uma escola de Decoração. De 1880 a 1890 a Sra Panton escrevia uma coluna semanal no The Lady Pictorial[17], falando sobre o tema e também prestava consultorias. Elsie de Wolf e Edith Wharton já contavam com respeito em NY como designers de interiores desenvolvendo diversos projetos.

Com esse tipo de atitude, diversas metáforas e imagens alegóricas sobre o “lar perfeito” foram criadas. Em 1913 Elsie de Wolf escreveu[18] que

“[…] um homem pode construir e decorar uma linda casa, mas cabe à mulher fazer dela um lar para ele. É a personalidade da dona da casa expressa. Os homens são para sempre convidados em nossos lares, não importa quanta felicidade eles possam encontrar ali.”

O que não contavam é que este aprisionamento das mulheres as levariam ao ócio forçado e, como exposto anteriormente, à histeria. Percebe-se a busca pela personalidade no lar, porém representando apenas a da senhora. Este conceito de que os interiores devem mostrar o caráter pessoal foi amplificado no século XIX quando as aparências (status) contavam mais que o verdadeiro caráter. Este pensamento era tão sério que, a mulher que não fosse capaz de expressar a sua personalidade através da decoração, era tida como menos feminina. Percebe-se então, que a profissão de Decoração já existe desde o final dos anos 1700 de maneira formal (estas senhoras citadas) bem como informal (as donas de casa)[19].

Como se vê, tudo isso tem a ver com convenções sociais de períodos específicos. Tais convenções são criadas por grupos dominantes e que as impõem como verdades absolutas. Paradoxalmente percebe-se que ao mesmo tempo em que as “autoridades” ditavam através de regras de Decoração as tendências e o certo/errado, impunham questões como a individualidade do caráter que deveria ser refletido nos espaços residenciais. Somente muito tempo depois disso percebeu-se que o bem estar moral (status/beleza/estética) deveria dar lugar ao pensamento sobre o bem estar físico (função/conforto). Ou seja, voltando às raízes do pensamento lá nas cavernas: como melhor utilizar o espaço disponível.

Não vou perder tempo aqui analisando a História recente desta profissão (séculos XIX e XX) já que existe farto material disponível sobre este assunto em livros e na internet. Mesmo que, na maioria das vezes diretamente ligados à pratica da Arquitetura, percebe-se que esta práxis não faz parte da mesma afinal, o elemento tratado e os objetivos são distintos em sua essência. Vamos começar então pela data “oficial” reconhecida pela História.

Oficialmente, atribui-se o nascimento de nossa área à passagem do Renascimento para o Barroco. Fica evidente a tentativa de ligação da nossa história à evolução dos estilos arquitetônicos, tanto que Le Brun – um arquiteto – é considerado o primeiro decorador de interiores da história. Conforme nos aponta GIBBS (2009):

“Na Itália do século XVII, o classicismo do Renascimento começou a evoluir para o estilo Barroco, caracterizado por sua teatralidade e exuberância dos ornamentos. A partir da Itália, esse estilo difundiu-se em toda a Europa, florescendo particularmente no sul da Alemanha, na Áustria, na Espanha e em Portugal. Quando o estilo Barroco começou a se manifestar na França e na Inglaterra, eram poucos os arquitetos que definiam os interiores das edificações que projetavam, e os projetos de maiores proporções costumavam ser desenvolvidos por artesãos especializados, que os realizavam a partir de gravuras de arquitetos italianos.”

Perceba que há um equívoco – para mim, proposital – no discurso atual da Arquitetura quando alegam que os projetos de interiores SEMPRE fizeram parte da práxis dos arquitetos. Le Brun assumiu exclusivamente a responsabilidade de realizar o projeto de interiores do Palácio de Versalhes, pois os arquitetos responsáveis pelas intervenções na edificação, François Mansart e Louis Le Vau, perceberam que não iriam conseguir contemplar todos os aspectos (estruturais, funcionais e estéticos) sozinhos bem como as exigências do projeto de interiores deveriam ser tão ricas em detalhes – principalmente que representassem o status do rei Henrique VI – que um artesão sozinho, por mais especializado que fosse, provavelmente não conseguiria atingir os objetivos criativos, inovadores e estéticos necessários. Mas não se sabe – ao menos oficialmente – se Le Brun realmente desenvolveu sozinho estes projetos ou se o fez em parceria com estes artesões, dada a complexidade dos detalhamentos e das estruturas do mobiliário e objetos decorativos. E, notadamente, os artesãos dominavam técnicas e materiais específicos que os arquitetos desconheciam.

Digo isso pois neste mesmo período, século XVII, o rei Henrique VI concedeu proteção real aos artesãos (marceneiros, carpinteiros, ferreiros, pintores, costureiras, etc.) reconhecendo a importância destes profissionais que eram, na verdade, aqueles que desenvolviam os projetos de interiores.

“Os huguenotes[20] refugiados exerceram um papel importante na evolução do Design de Interiores inglês, pois muitos eram artesão altamente qualificados.” (GIBBS, 2009).

Percebe-se claramente então, que o inicio real da área está intrinsecamente ligado aos artesãos bem como ao ser humano e a sua prática vernacular. Nesta prática, o projetar – aqui com significado de pensar em como solucionar o problema – está intimamente ligado ao fazer que é repassada de geração em geração através dos tempos. Isso significa que estes artesãos, muito antes da idéia de projeto introduzida pela Revolução Industrial, já haviam produzido padrões (projetos) que eram seguidos para a produção de objetos e repassados adiante de maneira informal seja pela observação ou pelo aprendizado prático como assistente. Não havia conhecimento teórico acerca do que estava sendo feito, mas sim, um conhecimento empírico do por que, para que e como fazer.

“No passado, muitos objetos foram sistematicamente produzidos com projetos muito sofisticados e com a mesma falta de compreensão da base teórica. É comum chamar esse procedimento de “projeto de ferreiro”, porque o artesão, tradicionalmente, projetava os objetos enquanto os fazia, sem desenhos técnicos, baseado em padrões antigos passados de geração em geração.” (LAWSON, 2011).

Os esquimós são um exemplo perfeito desta prática vernacular[21], pois nunca precisaram de um arquiteto, engenheiro ou projetista para criar – no início – e aperfeiçoar o modelo construtivo assim como o uso dos iglus. Eles vão recriando e adaptando-o conforme suas necessidades mudam. “Segundo Kingston Wm.Heath (2003), o vernacular é produzido por um indivíduo para seu próprio uso, ou por construtores anônimos e locais que respondem a fórmulas localmente adaptadas[22].

Christopher Alexander (1964) nos lembra que quando a sociedade é submetida a mudanças rápidas – como é o caso da Revolução Industrial – e a necessidade de artefatos[23] aumenta, seja em variedade ou em quantidade. Assim, é óbvio que a produção artesanal torna-se incapaz de suprir à demanda. Portanto, faz-se necessária uma abordagem mais ampla e técnica: o processo profissionalizado de concepção de produtos que atendam às novas necessidades aliado à rápida manufatura. Percebe-se então que o projeto, como o conhecemos hoje, não é fruto de planejamentos cuidadosamente calculados e sim, de uma reação às necessidades impostas pelas mudanças sociais e culturais da sociedade.

Mas voltando à História de nossa área, observando os elementos vernaculares e os subjetivos existentes[24], podemos concluir que a forma de “pensar o melhor uso” dos diversos espaços utilizados pelos seres humanos (base de nossa profissão) de maneira confortável, segura e eficiente ao mesmo tempo em que satisfaz as necessidades vem de longe, de eras bem mais distantes.

Na verdade, este pensar sobre as formas de usar os ambientes pode ser notado já, arrisco-me a afirmar, antes mesmo da Arquitetura (construção) surgir. Mas disso trataremos um pouco mais adiante ainda neste artigo. Vamos retrocedendo no tempo, nos aproveitando das práticas vernaculares e de pistas espalhadas pela História da humanidade, para que possamos entender este processo.

Antes de Le Brun (século XVII), nos séculos XV e XVI durante o período do Renascimento, já percebemos uma renovação sobre a função de criar os espaços interiores ou adequá-los ao melhor uso. Aqui percebemos que existiam, além dos artesãos, alguns arquitetos que tinham abandonado a Arquitetura pura[25] e enveredado para esta área bastante especifica passando a trabalhar apenas com isso. No entanto, é leviano afirmar que a Decoração ou o Design de Interiores e Ambientes nasceram da Arquitetura por causa disso. Percebam que houve uma necessidade específica (demanda) sobre um objetivo (problema) que não era uma “peça chave” considerada dentro da Arquitetura.

Já no século XII, as casas e templos recebiam cores, mobiliários, panejamentos e objetos decorativos bem como, a entrada de uma “luz” natural através dos rasgos na alvenaria oriundos do movimento Gótico após um longo período de escuridão, em diversos aspectos, que o antecedeu: a Idade das Trevas foi um período onde o processo criativo foi perseguido, ficou estagnado e quase foi eliminado. As Artes e a Arquitetura, bem como as práticas artesanais passaram a seguir padrões que refletiam o período: as guerras medievais (social) e a ascensão da igreja (moral) que geraram um momento de austeridade impostas por estas duas situações.

Retrocedendo um pouco mais, na Roma Antiga, os ambientes eram ricamente elaborados (estética) e inovaram em um ponto fundamental de nossa profissão: a busca pelo conforto. Os espaços passaram não apenas a servir como um espaço para ser admirado, mas deviam fundamentalmente propiciar o bem estar (conforto e segurança) de seus usuários permanentes e convidados.

Esta preocupação com a estética (para mostrar poder e status social) levou à renovação na forma de produção dos móveis, com atenção especial à ornamentação, pois agora estes faziam parte do embelezamento dos espaços.

Antes disso, na Grécia Antiga, já conseguimos perceber uma preocupação com essa área. “Os móveis outrora rústicos e feitos ao acaso passaram a ocupar grande parte da preocupação de seus feitores: sua elaboração passou a ser feita com mais esmero, e alguns móveis mais finos já traziam detalhes em metais nobres, tais como o marfim e a prata.[26]“.

Chegamos então a um credito “não oficial” do nascimento do Design de Interiores: o Egito. Neste período já se percebem traços do cuidado dos usuários (conhecimento vernacular) com relação aos espaços por eles utilizados, especialmente dentro de suas casas onde, entre outras coisas, buscavam desenvolver mobiliários utilitários (função) ao mesmo tempo em que, à sua maneira, tentavam torna-los mais agradáveis visualmente e confortáveis com o revestimento de peles e tecidos. Também se percebe nestes mesmos ambientes a existência de murais, acessórios utilitários e objetos decorativos. Tais cuidados refletem claramente a constante preocupação com a organização dos espaços internos.

Como se vê, a preocupação com o bem estar – e tudo que este termo engloba – dentro e fora das edificações está presente há muito tempo na História da humanidade. Mas não podemos parar por aqui afinal, a nossa História contém ainda muitos passos que podem ser percebidos muito antes do Egito Antigo.

Regredindo um tanto mais na linha do tempo chegamos ao homem que utilizavam as cavernas[27], a primeira “habitação” do ser humano.

Na verdade as cavernas não podem ser tratadas como habitação e sim como abrigos. Segundo o Dicionário Michaelis, o termo habitação refere-se a

“ha.bi.ta.ção

sf (lat habitatione) 1 Ato ou efeito de habitar. 2 Lugar em que se habita. 3 Casa, moradia, residência, vivenda. 4 Habitat. 5 Designação do lugar ou sítio onde os animais se recolhem.” (grifo nosso).

Já os abrigos significam, segundo o mesmo dicionário,

“a.bri.go

sm (lat apricu) 1 Tudo que serve para abrigar das intempéries: “Na hora quente do dia, o sol cintilava na clareira do abrigo, os animais se juntavam debaixo das árvores” (Amadeu de Queirós). 2 Cobertura, galpão, telheiro. 3 Algo que oferece proteção ou refúgio contra exposição, dano físico, ataque, observação, perigo etc. 4 Enseada. 5 Guarida. 6 Proteção. 7 Mil Construção à prova de projéteis e bombas. A. antiaéreo: estrutura subterrânea, construída especialmente para proteger pessoas contra ataques aéreos. A. de menores: internato para educação e reeducação de crianças ou jovens abandonados. A. público: abrigo contra o sol e a chuva, nos pontos de espera de veículos coletivos, em grandes cidades. Ao abrigo de: protegido de. (grifos nossos).

Percebe-se claramente com estas definições que, por mais que se faça presente na definição de abrigo o elemento relativo à construção dos abrigos à prova de projéteis e bombas, as cavernas não podem ser consideradas habitações, pois não possuem elementos construtivos. Pelo contrário, são espaços naturais existentes formados pela própria natureza. Os homens primitivos apoderavam-se destes espaços naturais para enfrentar as adversas condições impostas pela natureza já que encontraram nestes lugares, áreas perfeitas para aquecê-los em noites frias especialmente nos períodos de inverno, para protegê-los da chuva, do vento e dos animais. Era bastante comum também que eles colocassem na entrada destas cavernas grandes pedras ou fizessem fogueiras para evitar a entrada de animais garantindo assim a segurança de todos os usuários.

Dentro das cavernas percebemos outros elementos que também podemos considerar como o início da forma de “pensar o melhor uso para os espaços” utilizados por eles já que a caverna era dividida em áreas distintas e basicamente bem definidas, dependendo da dimensão do ambiente. Havia a área para dormir, a área de convivência e a área para preparo e consumo da alimentação. Também encontram-se provas de que haviam preocupações com o conforto, mesmo que de forma rudimentar, ao observarmos as “camas” feitas de capim bem como as imagens retratadas nas paredes, as pinturas rupestres[28], traziam aos usuários a sua história, registram as formas de agir e de planejamento do clã em suas ações, bem como representam de certa forma, o status do clã. Podem ser consideradas também como elementos decorativos ligados diretamente à estética.

Como podemos perceber, independente da História oficial afirmar uma coisa, observando a trajetória da humanidade é fácil perceber que a forma como utilizamos os diversos espaços em nosso dia a dia, assim como a constante preocupação com o bem estar, o conforto, a segurança e a estética estão enraizados desde os nossos primórdios. Isso reflete claramente o processo de trabalho de um designer: encontrar o problema – seja de qual natureza for – e buscar a melhor solução para ele. Esta é a forma de pensar do designer.

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[1] Refiro-me aqui a todo o processo envolvido no desenvolvimento e implantação de um projeto que vai desde a coleta de dados, passa pelo estudo e analise de possibilidades chegando ao projeto final que será implantado.

[2] CERTEAU, Escrita da história, 1982.

[3] Idem, pp 26.

[4] “Bauhaus: Novarquitetura”, 1974 – 2 ed.

[5] WOLF, Tom. “Da Bauhaus ao nosso caos”, Ed. Rocco, 1990.

[6] NETO, Mariano Lopes de Andrade; CAMPOS, Lívia Flávia de Albuquerque; MARSON, Elissandra; KAMISAKI, Margareth Sayuri; SILVA, José Carlos Plácido da; PASCHOARELLI, Luis Carlos. “Bauhaus e o Jardim de Epicuro: Discurso e Prática”.

[7] Percebem como este tipo de pensamento ainda é empregado hoje em dia? De profissionais a órgãos ligados à Arquitetura, ainda hoje vemos constantemente falas e ações que representam claramente este absolutismo arquitetônico tentando ser imposto.

[8] FORTY, Adrian. “Objetos de Desejo”. Edição revisada e ampliada. Ed. Cosac Naify, 2013. A original data de 1686.

[9] A Primeira etapa da Revolução Industrial ocorreu entre 1760 a 1860 e ficou limitada, primeiramente, à Inglaterra. A Segunda Etapa ocorreu no período de 1860 a 1900, abrangendo países como Alemanha, França, Rússia e Itália que também se industrializaram. A Terceira Etapa considera os avanços tecnológicos do século XX e XXI.

[10] Produzido em larga escala, mecanicamente ou manufaturadas.

[11] De junho de 1837 a janeiro de 1901.

[12] Hoje trabalha-se com a ideia dos home offices. Um movimento contrário à ideia de separação dos ambientes. Isso se deve cada vez mais pelas necessidades especificas da sociedade e das pessoas.

[13] Aqui podemos perceber claramente de onde vem a concepção de que nossa área está relacionada aos projetos dignos de capas de revistas, bem como esta ser uma atividade feminina.

[14] Prendado – adj. Dotado de muitas e boas qualidades. / Que tem esmerada educação.

prenda – s.f. Presente, dádiva. / Qualidade, dom. / Aptidão; conhecimentos; arte; habilidade. / Bras. (RS) Jóia. // Fam. e Ironic. É uma…

[15] Não à toa que ainda hoje vemos nossas clientes (esposas) dominando o pensar sobre como deve ser o projeto, definindo questões pertinentes a outros usuários (esposo, filhos, etc.) e assim por diante. Absurda e lamentavelmente, ainda percebemos ecos dessa época atualmente.

[16] Sra. Haweis, Sra. Paton, Sra. Edith Wharton, Sra. Ogden Codman, Sra. Elsie de Wolf entre outras.

[17] Lady’s Pictorial – In print: 1891. The Lady’s Pictorial was a periodical aimed squarely at middle class women, and a rival to The Queen. It regularly printed articles on the enlargement of women’s sphere, particularly in employment. A large number of women were employed on the staff. (Disponível em http://www.cardiff.ac.uk/).

[18] Livro “The house in good taste”.

[19] Isso rompe com o ideário de que a organização dos espaços internos sempre foi uma prerrogativa da Arquitetura.

[20] Recebia o nome de huguenote todo o seguidor da religião protestante na França. Eram na maioria calvinistas (acreditavam nos ensinamentos de João Calvino) e membros da Igreja Reformada. A origem do termo é creditada aos católicos franceses, que o teriam criado baseando-se no nome de Besançon Hugues, líder religioso suíço. (http://www.infoescola.com/religiao/huguenotes/).

[21] Já que fala-se tanto sobre “Arquitetura Vernacular”, destacando a sua relevância e importância histórica para a área (em 1997, foi lançada “The Enciclopedia of Vernacular Arquitecture”, o primeiro estudo internacional sobre edifícios vernáculos, editada por Paul Oliver), podemos também utilizar este termo para defender estas ideias sobre a nossa área: o Design vernacular.

[22]O Design e a Valorização do Vernacular ou de Práticas Realizadas por Não-Designers”. Ibarra, MSc Maria Cristina.; Ribeiro A.C., Dra Rita.(2014).

[23] “Forma individual de cultura material ou produto deliberado da mão-de-obra humana” HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. Ed. Objetiva. 2001.

[24] As descobertas arqueológicas provam isso.

[25] Projetos arquitetônicos, edificações.

[26] Fonte: http://www.portaleducacao.com.br/iniciacao-profissional/artigos/45048/historia-do-design-de-interiores#!1

[27] ca.ver.na – sf (lat caverna) 1 Cavidade de grandes dimensões em monte, rochedo ou sob a terra; antro, furna, gruta. (MICHAELIS).

[28] ru.pes.tre – adj m+f (lat rupes) 1 Relativo às rochas. 2 Que vive nas pedras. 3 Bot Diz-se do vegetal que cresce sobre os rochedos. 4 Inscrito ou desenhado nas rochas: Pinturas rupestres. (MICHAELIS).

A nossa História

Dias atras, navegando parcamente pelo facebook através de meu smartphone me deparei com esta imagem:

Já tem muito tempo que venho investigando sobre as origens do Design como profissão. Como sempre fui um questionador, não aceito da “História oficial” que somos obrigados a engolir pois já sei de diversos casos onde a historia que vemos nos livros é uma e a realidade dos fatos é outra. Não à toa que a Arqueologia é uma área tão  facilmente descartada em muitas destas “conclusões históricas”.

Isso tem um porque de acontecer e vale ressaltar alguns pontos que percebi ao compartilhar a imagem em meu facebook e em alguns grupos: a cegueira intelectual oportunista a que fomos acostumados (ou treinados) durante toda a nossa vida: as convenções sociais, mercadológicas, acadêmicas, etc.

Importante antes de prosseguir: a imagem fala sobre Design Gráfico.Porém, para os não preguiçosos e os que realmente sabem o que é Design é fácil transportar estas informações para a sua área específica seja ela Produto, Moda, Interiores, Lighting, etc.

Num dos grupos, o fechado de meu blog, houve uma contestação sobre a colocação das pinturas rupestres como um dos pontos históricos e alegando que isso somente deveria começar somente depois do inicio do desenvolvimento de ferramentas e do dominio sobre o fogo ou da forja de metais.

A resposta para isso é simples: o infográfico fala da área Gráfica. E podemos sim analisar as pinturas rupestres além das Artes Plásticas, como primeiras impressões do Design. Neste caso, o Design Gráfico. Podemos assim lê-las, à primeira vista, como impressões de MARCAS dos clãs que podem significar domínio sobre determinado território. Também as imagens que mostram o “como fazer” as caçadas (historicamente aprendemos que se tratam de histórias relatando “como foram feitas”) podem ser lidas como INFOGRÁFICOS relatando o passo a passo, repassando as informações necessárias às proximas gerações entre tantas outras explicações possíveis nessa linha de raciocínio.

Houve também num outro grupo a contestação de que Design trata-se da produção em série e, por isso, é atribuído ao pós Revolução Industrial, o nascimento da área.

Este tipo de contestação tem tudo a ver com a historicidade (como e por quem a história “oficial” é escrita, às vezes com intenções claras e outras tácitas, distorcendo a realidade) e que acaba sendo imposta como regra.  Design é Design, não importa se industrial ou de peças exclusivas afinal, existem muitos profissionais habilitados em desenho industrial que vivem da produção de peças únicas, exclusivas. E nem por isso deixam de ser Design.

O que acontece é que já existem teóricos do Design que vem pesquisando e buscando lastros do início da atividade de Design (perceber o problema ou necessidade e desenvolver uma ou várias soluções para os mesmos) mesmo que em atividades aparentemente simples. A questão é a forma de abordar o problema e a solução que tem tudo a ver com a forma de trabalhar (processo criativo e produtivo) do designer.

Se o infográfico acima fosse sobre a área de Produtos, poderíamos colocar ali os primeiros tacapes e utensílios criados pelos homens das cavernas visando solucionar os problemas (ou suas necessidades). Tudo bem que o projeto não foi passado para o papel e sim rabiscado nas paredes das cavernas, mas uma fato é inegável: este processos ficou atrelado a um processo mental de repetição da produção seja pelo criador como pelos que conviviam com ele e aprenderam a construir tais objetos.

É uma questão de busca de lastros históricos que incluem a arqueologia que, como já escrevi acima e reforço aqui, é uma ciência sempre desprezada quando vai contra os interesses de quem está escrevendo a história.

Ou será que a produção de espadas, lanças, escudos e armaduras para toda a tropa dos exércitos antigos não pode ser considerada como “produção em massa”? São produtos iguais, produzidos pelas mesmas pessoas de forma artesanal visando solucionar dois problemas principais: a segurança (proteção) e o ataque.

Assim, urge a necessidade da academia de Design, em todas as suas áreas, colocar seus pés no chão e começar a observar mais atentamente estes lastros históricos do inicio de nossa profissão.

Ou ficarão inertes aceitando que as cavernas foram as “primeiras construções arquitetônicas da humanidade”?

Será que nem este absurdo a academia e as associações de Design conseguem perceber?

Ou não querem perceber, seja por qual motivo for?

Design de Ambientes – Breve histórico, definições e considerações

Paula Glória Barbosa

Profª MSc da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais

Considerações sobre o termo design

A palavra design tem ambiguidade em sua etimologia. Designare, do latim, origem mais remota do termo, significa, simultaneamente, designar (conceber, projetar, atribuir) e desenhar (registrar, configurar, formar) (CARDOSO, 2008)[1]. Segundo Schneider (2010, p.195)[2], em 1588, o termo foi mencionado pela primeira vez no Oxford English Dictionary, definido “como um plano elaborado por uma pessoa ou um esquema de algo a ser realizado, além de um primeiro esboço para uma obra de arte (ou) um objeto de arte aplicada, necessário para a realização de uma obra”.

Do inglês, a palavra foi apropriada pelo português, mantendo a ideia de concepção, intenção, desígnio, projeto (referência ao abstrato) e configuração, arranjo, estrutura, desenho, produto de uma concepção (âmbito concreto) (HOUAISS, 2013)[3]. O design, na sua acepção de substantivo que determina uma profissão ou área do conhecimento, pode ser entendido, conforme apresenta Cardoso (2008)[4], como uma atividade destinada a atribuir forma material a conceitos intelectuais. Moura (2005)[5], em seus estudos, discute o design a partir do significado de desenho, projeto e desígnio, três sentidos que, inter-relacionados, dizem da intenção de levar algo da não presença à presença. Nesse processo, o projeto, visualizado principalmente por desenhos, configura-se como o meio pelo qual é possível levar uma ideia do imaterial ao tangível, possibilitando a concretização da intenção.

Como organização internacional dedicada à discussão e ao reconhecimento do design e sua comunidade, o International Council of Societies of Industrial Design (Icsid) apresenta, desde a sua fundação em 1957, diferentes definições para design que acompanham o seu processo evolutivo. A última conceituação de design publicada pelo Icsid contextualiza algumas das principais temáticas presentes no debate contemporâneo da disciplina, como as novas tecnologias e seus impactos socioculturais e ambientais:

Design é uma atividade criativa na qual o objetivo é estabelecer as qualidades multifacetadas dos objetos, processos, serviços e seus sistemas, compreendendo todo o ciclo de vida. Portanto, design é um fator central de inventiva humanização das tecnologias e fator crucial de trocas culturais e econômicas. (ICSID, 2013).[6]

Cabe, portanto, ao designer, o papel de interpretar e relacionar, de forma holística, os múltiplos aspectos dos objetos, processos, serviços e seus sistemas com o contexto de projeto, visando o equilíbrio entre a inovação tecnológica e o ecologicamente correto, o economicamente viável, o socialmente justo e o culturalmente aceitável. Essas interpretação e relação são, em suas essências, complexas, exigindo do designer uma abordagem criativa e multidisciplinar na busca por soluções pertinentes, viáveis e eficientes. Ressalta-se, nesse processo, o usuário final como centro das atenções do projeto.

Nessa definição, percebe-se, também, a expansão do campo de atuação do design, antes centrado em produtos industriais e agora capaz de abarcar objetos, processos e serviços, a partir de uma visão integral do sistema que os envolve, se expandindo, pois, em especialidades como o design de ambientes, o design gráfico, o design de serviços, o design de moda e o design de produtos.

Para Schneider (2010)[7], o design, de um modo geral, expressa-se por meio de suas três funções: a prático-técnica, a estética e a simbólica. A primeira, conhecida também como funcional, refere-se às características intrínsecas do objeto, como durabilidade, confiabilidade, qualidade técnica, segurança e manuseabilidade, ou seja, aos aspectos que podem ser avaliados e mensurados de forma racional pela percepção humana. A função estética, ao contrário, é emocional e subjetiva, tratando do aspecto formal do objeto a partir da composição de cores, materiais, formas e superfícies. Essa composição dá ao objeto a conotação de signo, tornando-o “legível” e dando indicações visuais para o seu uso. Por fim, a função simbólica diz respeito ao significado do objeto, codificado e transmitido pelo proprietário às pessoas de seu convívio social. Refere-se, portanto, a estilos e a filosofias de vida. Assim, os objetos identificam personalidades e se configuram como uma forma de expressão decodificável, possibilitando integração social, diferenciações e classificações.

Os objetos de design refletem, portanto, formas de vida e de produção de uma sociedade, de uma época. Segundo Shcneider (2010, p.201)[8], “o projeto de objetos de design é tanto uma prática social quanto a reflexão sobre essa prática”. Tal discussão corrobora com a ideia do design enquanto “fator crucial de trocas culturais e econômicas”, conforme exposto na ultima definição de design elaborada pela Icsid.

Em conclusão, o design pode ser entendido como uma atividade capaz de solucionar diversos problemas da sociedade contemporânea, marcada, principalmente, pelo incentivo à inovação, pela diversidade de materiais e tecnologias, pelo processo de globalização e pela necessidade do consumo sustentável. Nesse cenário, o designer se posiciona como um profissional habilitado a responder, a partir de uma perspectiva sistêmica de gestão da complexidade, pelo desenvolvimento de projetos centrados nos usuários, sob a perspectiva da abertura à pesquisa, do diálogo interdisciplinar, do apoio à diversidade cultural e da capacidade de articular inovação e sustentabilidade, posicionando-se como uma disciplina capaz de moldar o ambiente humano e influenciar os padrões de vida em sociedade (Cardoso, 2012; Krucken, 2008; Moraes, 2008)[9].

Da Decoração ao Design de Ambientes: um brevíssimo histórico

O contexto industrial das décadas de 1940 e 1950 – a profusão de artefatos, de móveis e de eletrodomésticos disponíveis para o consumo – caracterizou, segundo Santos (2009)[10], os hábitos da vida moderna e influenciou, diretamente, a configuração dos espaços habitados, bem como as relações que ali eram estabelecidas, evidenciando extrema preocupação com a aparência e a praticidade.

Organizar os espaços interiores do cotidiano para usufruto das vantagens da cidade moderna e das novidades industriais era, mais do que um desejo, uma necessidade. Embora houvesse recursos alternativos para o aprendizado sobre as tendências de composição dos interiores – como reportagens e propagandas veiculadas em revistas especializadas no assunto – na década de 1950 a presença de um profissional que considerasse, em projeto, aspectos técnicos e estéticos da composição se tornou mais requisitada. Surgiu, assim, a demanda por um profissional que soubesse planejar os interiores domésticos e comerciais, de modo que o antigo de então recebesse, harmônica e funcionalmente, o novo daquele tempo. (MOREIRA, 2006)[11].

De início, dada a novidade da ocupação cuja essência e demanda passavam a se desenhar, tal atividade era desenvolvida substancialmente por arquitetos, artistas e pessoas de “bom gosto”, obviamente não por quem se dedicasse profissional e exclusivamente à tarefa, então denominada Decoração.

O significado do termo decoração está intimamente associado à arte de ornamentar, adornar, embelezar (HOUAISS, 2012)[12]. No entanto, no contexto da vida moderna, além da preocupação com a aparência, existia a necessidade de se planejar o uso e a ocupação dos espaços habitados da cidade, visando facilitar a prática das atividades cotidianas em virtude da maneira cada vez mais dinâmica de viver.

Em Belo Horizonte, visando à capacitação profissional de alunos interessados nessa área inaugurou-se, em 1957[13], a Escola de Artes Plásticas (ESAP), subordinada à já existente Universidade Mineira de Arte (UMA). A ESAP entrou em funcionamento oferecendo quatro cursos inéditos na época, estruturados em quatro áreas distintas, dentre elas a Decoração, inicialmente na forma de curso livre. Em 1963[14], foi instituída a Fundação Universidade Mineira de Arte (FUMA), que passou a congregar a ESAP.

Em 1964[15], foi concedido reconhecimento à ESAP/FUMA por parte do governo federal, garantindo o título de bacharel em Decoração aos alunos graduados pela instituição. No ano de 1994[16], a FUMA foi extinta, seu corpo docente e administrativo foi transferido à recém-criada[17] Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e, posteriormente, a ESAP passou a ser denominada Escola de Design (ED).

Para obter o título de decorador era necessário cursar disciplinas práticas e teóricas por um período mínimo de quatro anos. O objetivo desse curso era, conforme apresenta Moreira (2006, p.67)[18], “formar profissionais qualificados para compreender as demandas do público alvo, seu contexto social e cultural, entender o espaço, suas funções e possibilidades, propor soluções adequadas, considerando aspectos históricos e artísticos, e ainda, representar graficamente suas ideias”.

A sociedade, por sua vez, experimentou grandes mudanças desde a década de 1950. A revolução tecnológica, que se iniciou na segunda metade do século XX e perdura até os dias de hoje, implicou maior velocidade no ritmo de vida das pessoas, já acelerado desde a revolução industrial. A Decoração, então, precisou ser adaptada a esse novo cenário. Fez-se necessário, portanto, a compreensão da abrangência da profissão, desvinculado-a da simples ideias de ornamentação e organização.

Diante desse contexto, desde a inauguração do curso de Decoração o respectivo colegiado buscou adequá-lo às necessidades da sociedade e do mercado de trabalho, alterando diversas vezes a matriz curricular e o conteúdo das disciplinas de forma a acompanhar as inovações ocorridas nos campos de atuação do decorador (ESCOLA DE DESIGN, 2003)[19].

Por meio de esforços empreendidos desde 1994 pela necessidade de reformulação geral do conteúdo das disciplinas, implantou-se, em 2004, um novo currículo para o curso de Decoração, que passou a se chamar Design de Ambientes.

Dessa forma, o então curso de Decoração da ED/UEMG modificou-se para adequação à ideia vigente de design, pautada em uma metodologia de desenvolvimento de projeto com foco no usuário, no incentivo à pesquisa, no trato da inserção das novas tecnologias no cotidiano e no compromisso com a inovação e a sustentabilidade, se propondo a fazer design para ambientes.

Design de ambientes é, portanto, uma especialidade do design, responsável por identificar e analisar problemas oriundos das relações entre o individuo e o espaço que habita, propondo soluções que promovam bem estar e qualidade de vida aos usuários.

Considerações sobre o Design de Ambientes

O design de ambientes pode ser entendido como uma atividade criativa e de caráter multidisciplinar dedicada ao planejamento da ocupação e do uso dos espaços habitados – sejam internos ou externos; residenciais, empresariais, institucionais, industriais ou efêmeros; arquitetônicos ou não arquitetônicos –, tendo o usuário como foco de projeto e considerando os aspectos funcionais, estéticos e simbólicos do contexto sócio-econômico-cultural em que atua, de modo a resultar em ambientes confortáveis e eficientes às demandas instituídas, contribuindo para o bem estar e a qualidade de vida dos seus usuários.

O planejamento de um ambiente envolve, basicamente – e a partir da articulação entre os referidos aspectos funcional, estético e simbólico –, a elaboração do layout; o estudo e a definição das cores, formas, texturas, mobiliários, equipamentos e obras de arte que compõe o ambiente; a especificação dos materiais para revestimentos de pisos, paredes, divisórias, forros, etc.; e a elaboração das estratégicas de conforto ambiental, como a configuração da iluminação e dos sistemas de condicionamento de ar. Deve, também, atender às exigências normativas pertinentes e dar atenção a questões como sustentabilidade e inovação. Cabe, no ponto, ressaltar a limitação de atuação do designer de ambientes quanto às alterações estruturais construtivas, hidrossanitárias e elétricas.

A ocupação de um ambiente está relacionada ao sentimento de apropriação, em que o projeto tem, intencionalmente, o objetivo de estimular determinada sensação com o intuito de despertar, no usuário, o sentimento de identificação, de posse, de pertencimento àquele lugar. O uso, por outro lado, refere-se à utilidade prática do ambiente de acordo com a sua natureza, como dormir, estudar, comer, conversar, entre outras ações possíveis a partir da relação do indivíduo com o espaço e entre os próprios indivíduos envoltos pelo ambiente.

A diferença conceitual entre interno e externo se dá pela existência (no caso do primeiro), ou não (em se tratando do segundo), de uma estrutura que circunde o ambiente em questão. Exemplos de ambientes internos são o interior de uma embarcação ou de um trem, uma vitrine de loja de roupa, um cômodo de dormir, uma sala de aula, uma clínica odontológica ou o palco de um teatro. Para os ambientes externos, há a possibilidade de se trabalhar, dentre outros, o paisagismo de uma pousada, a configuração de uma exposição ao ar livre ou um show musical em uma praça. A partir desses exemplos é possível perceber a diversidade de espaços possíveis para interferência do designer de ambientes, sejam esses arquitetônicos ou não, para as funções residencial, empresarial, institucional, industrial ou efêmera.

Assim, o designer de ambientes se posiciona, na atualidade, como um profissional capacitado tecnicamente e hábil na compreensão das demandas contemporâneas, na interpretação dos modos de vida e na proposição de soluções que promovam conforto, bem-estar e qualidade de vida aos usuários.

A diferença que há entre o trabalho do designer de ambientes e de outros profissionais ligados ao planejamento e à configuração dos espaços, como os arquitetos, é a forma como os designers analisam as necessidades, as experiências e os desejos dos usuários; pesquisam as condicionantes técnico-práticas, estéticas e simbólicas do contexto projetual; interpretam os modos de vida e as respectivas possibilidades de adequação ao ambiente em questão; e propõem soluções pertinentes, viáveis e singulares, posicionando-se como um profissional especialista no planejamento e na configuração dos ambientes para vivência humana.


[1] CARDOSO, Rafael. Uma Introdução à História do Design. 3.ed. São Paulo: Edgar Blücher, 2008.

[2] SCHNEIDER, Beat. Design – Uma Introdução: o Design no contexto social, cultural e econômico. Trad.: Sonali Bertuol, George Bernard Sperber. São Paulo: Editora Blücher, 2010.

[3] HOUAISS. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Design. Disponível em:

<http:// http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=design&gt;. Acessado em: 09 de Setembro de 2013.

[4] Idem nota 1.

[5] MOURA, C. O desígnio do design. In: Livro de Actas – 4º SOPCOM | Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, Aveiro, 2005, p. 73-81.

[6] ICSID. International Council of Societies of Industrial Design. About ICSID. Disponível em:

<http://www.icsid.org/about/about.htm&gt;. Acessado em: 26 maio 2013. Traduzido pela autora. Texto original: “Design is a creative activity whose aim is to establish the multi-faceted qualities of objects, processes, services and their systems in whole life cycles. Therefore, design is the central factor of innovative humanisation of technologies and the crucial factor of cultural and economic exchange”.

[7] Idem nota 2.

[8] Idem nota 2.

[9] CARDOSO, Rafael. Design para um Mundo Complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

KRUCKEN, Lia. Competências para o design na sociedade contemporânea. Caderno de Estudos Avançados: Design e Transversalidade, Caderno 2, v. 1. Belo Horizonte: Santa Clara: EdUEMG, 2008. P. 23-32.

MORAES, Dijon de. Design e Complexidade. Caderno de Estudos Avançados: Design e Transversalidade, Caderno 2, v. 1. Belo Horizonte: Santa Clara: EdUEMG, 2008, p. 07-22.

[10] SANTOS, Edgar Souza. A caminho do lar – a narrativa dos anúncios de eletrodomésticos. 2009. 207 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade de São Paulo, USP, São Paulo, 2009.

[11] MOREIRA, Samantha. C. de O. Interiores de Casas Residenciais em Belo Horizonte: a década de 1950. 2006. 137f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006.

[12] HOUAISS. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Decoração. Disponível em:

<http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=decora%25C3%25A7%25C3%25A3o&gt;. Acessado em: 21 de Setembro de 2013.

[13] Escola de Design/UEMG. História. Disponível em: < http://www.ed.uemg.br/sobre-ed/historia&gt;. Acessado em 09 de Setembro de 2013.

[14] Lei Estadual nº 3.065, de 30 de dezembro de 1963. Disponível em: Diário do Executivo. 31/12/1963. p. 3_col5.

[15] Decreto nº 55.068, de 24 de novembro de 1964. Disponível em: Diário Oficial da União – Seção 1 – 16/2/1965, Página 1881.

[16] Decreto Estadual nº 36.639, de 10 de janeiro de 1995. Disponível em: Diário do Executivo. 11/01/1995. p. 1_col2.

[17] Constituição Mineira de 1989: Art. 199 – Estabelece autonomia universitária e define a forma de constituição da UEMG; Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art. 81 – Cria a UEMG; Art. 82 – Possibilita a absorção, pela UEMG, de fundações educacionais.

[18] MOREIRA, Samantha. C. de O. Interiores de Casas Residenciais em Belo Horizonte: a década de 1950. 2006. 137f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006.

[19] ESCOLA DE DESIGN da Universidade do Estado de Minas Gerais (ED/UEMG). Projeto Pedagógico – Curso de Design de Ambientes. Belo Horizonte, 2003.

Cine Teatro Ouro Verde – Londrina PR

Como já devem estar sabendo, infelizmente perdemos o nosso Teatro ouro verde no último domingo (12/02/2012) por causa de um incêndio.

Projetado pelo mestre Vilanova Artigas em 1948 e inaugurado em 1952. Estava prestes a completar 60 anos e para ser tombado pelo IPHAM como patrimônio Histórico. Já estava tombado pelo Governo Estadual. Iniciou suas atividades como cinema e depois foi sendo adaptado para receber teatro, dança e shows musicais. Estava passando por uma nova reforma ultimamente.

Infelizmente o que nos resta dele hoje é o que esta imagem abaixo mostra e nossas memórias.

O fogo queimou mais uma doce lembrança de minha vida em Londrina. É, o meu coração chora…“. (jornalista Regina Daefiol sobre o incêndio no Cine Teatro Ouro Verde).

Lembro-me das vezes em que me apresentei, cantei ou tocando, neste palco quando participava dos Festivais de Música de Londrina (FML). Lembro-me de minhas idas ao cinema em minha infância e juventude. Lembro-me das histórias contadas por minha mãe e tias sobre o Ouro Verde e tudo que rolava por ali na época de suas juventudes.

Como já escrevi aqui e aqui, sou neto e bisneto de colonizadores desta linda cidade do norte pioneiro do Estado do Paraná. Nasci aqui em dez/1970. Apesar de ter passado grande parte de minha vida fora desta terrinha, sempre expressei o meu orgulho em ser um “pé vermêio”, tanto que acebei voltando a morar aqui em 2003.

Assim, ofereci gratuitamente à Universidade Estadual de Londrina o projeto completo de lighting design para a reconstrução do nosso Cine Teatro Ouro Verde.

Protocolei hoje pela manhã um ofício para a Reitora Nádina formalizando este meu ato. Postarei a íntegra no post a seguir.

Mais que necessário ressaltar que consegui o apoio de alguns profissionais renomados na área de iluminação para esta minha proposta:

A mega iluminadora Jamile Tormann se dispôs a fazer o projeto de iluminação da caixa cênica gratuitamente.

O Maria Clara De Maio, editora da Revista Lume Arquitetura, ofereceu uma matéria na revista assim que o meu projeto e a reconstrução estejam concluídos.

Também recebi e-mails de apoio e como referências profissionais do Farlley Derze e do Oswaldo Perrnoud, dispondo-se a ajudar no que for preciso.

Agradeço também o contato da Srª Magali Kleber, da UEL, agradecendo a minha disposição em me doar para este projeto.

Agora é aguardar o andamento de tudo isso e formalizar os contatos com os responsáveis pela reconstrução do nosso cine Teatro Ouro Verde.

A cor da luz

Por Farlley Derze*

Texto originalmente publicado na Revista Luz & Cena, edição número 149, dez/2011, autorizado pelo professor Farlley a sua publicação aqui em meu blog. Este faz parte de uma série de 5 artigos que serão publicados na revista.

Aurora Boreal. Fonte: Curiosando

Uma das maravilhas que a natureza nos proporciona é a poesia das cores da luz, durante as 24h do dia. Nós brasileiros, devido à posição de nosso território no globo terrestre podemos contemplar as nuances coloridas no horizonte quando desperta o sol, ou quando ele se despede ao anoitecer. Por outro lado, os povos que habitam próximo aos polos têm a chance de assistir a outro espetáculo de cores: a aurora boreal no polo norte e aurora austral no polo sul, quando rajadas de ventos solares (neutrinos) colidem com o conjunto de gases de nossa atmosfera. Resultado: um ballet de cores em movimento a altitudes que variam entre 80km a 200km, onde cada cor representa um tipo de gás.

Como o assunto é a cor, olhemos para a realidade tecnológica da iluminação artificial, dos dias atuais. Quem frequenta casas de espetáculos tem a oportunidade de assistir em peças de teatro ou shows de dança e música, uma multidão de cores que dialogam com a cena. Então podemos pensar metaforicamente em linguagem ou linguagens de iluminação, tal qual ocorreu no mundo da pintura ocidental e suas linguagens: pintura medieval, renascentista, barroca, neoclássica, romântica e uma avalanche de “ismos” que caracterizou a pintura moderna (impressionismo, pontilhismo, expressionismo, futurismo, cubismo, primitivismo, raionismo, construtivismo, fauvismo, surrealismo, abstracionismo…). Assim como por traz de cada linguagem pictórica havia um grupo de pintores que a representava, nas linguagens da iluminação cênica há um grupo de artistas que as representam – os iluminadores cênicos. Pintores e iluminadores cênicos têm muito em comum. Refiro-me à maneira como conjugam poeticamente a cor, os contrastes de luz (do brilho mais intenso ao facho mais tênue), os diálogos entre luz, sombra e escuridão, a distribuição dos movimentos de luz que convidam nossos olhos a passear pelas superfícies e vãos que se alternam no espaço. Por trás do repertório poético de cada profissional há o repertório tecnológico com o qual lidam para unir conhecimento e criatividade a serviço da cena a ser iluminada. Os pintores medievais, renascentistas, barrocos faziam de forma caseira suas tintas coloridas com gema de ovo, sangue de animais, metais oxidados, ervas, carvão e óleos vegetais. Após entrevistar dezenas de iluminadores cênicos brasileiros descobri que muitos deles criaram artefatos como mesas de luz, refletores e dimmers, dentre outros, artesanalmente. Souberam dar soluções muito criativas para a obtenção de luz colorida bem como para a obtenção de materiais para montar refletores. Um deles me contou que pegava restos da indústria automobilística, como porta de fusca, e em casa retorcia a chapa para montar um refletor do tipo PC. Eu adoraria compartilhar essas histórias que ouvi desses profissionais aqui nessa coluna, em edições futuras.

Como prometi na edição anterior vou compartilhar com vocês a ideia que o italiano Sebastiano Serlio teve em 1551, e que deu origem à iluminação colorida na cena. Com base na fonte bibliográfica que tenho em meus arquivos, um livro de 1929 chamado The history of stage and theatre lighiting, Sebastiano Serlio trabalhava em um teatro no século 16 e teve a ideia de posicionar algumas velas atrás de garrafas de vidro que estavam cheias de uma mistura de água com líquidos de cor vermelha ou azul. O resultado foi a propagação de luz colorida por causa das propriedades físicas da luz, como reflexão e refração. Para intensificar o efeito, ele teve a ideia de posicionar atrás das velas uma espécie de disco de metal para aumentar o poder de reflexão, como se fosse um espelho. O conjunto então era: garrafas cheias de líquidos coloridos, por detrás delas as velas, e atrás das velas as superfícies metálicas. Caso o prezado leitor tenha interesse em ler esse livro, eu o tenho no formato digital (pdf). Basta solicitar por e-mail: diretoria@jamiletormann.com

Agora nos resta fazer uso da imaginação para vislumbramos o efeito luminoso – cênico – proporcionado pela ideia desse italiano renascentista, numa época onde um ambiente fechado como o teatro dispunha apenas da chama acesa como fonte luz a contracenar com manchas de escuridão. Imaginemos agora as velas, garrafas coloridas e superfícies metálicas a esparramar cores na cena teatral.

Nos dias atuais, o diodo emissor de luz (LED) é a vedete tecnológica. Oferece baixo consumo energético, pouca dissipação de calor e muita variedade de cores. Entretanto, basta ouvir o que pensam os membros da Associação Brasileira de Iluminação Cênica (AbrIC), os membros do Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral (IBTT), e professores do Instituto de Pós-Graduação (IPOG) que juntos formam uma rede cultural de profissionais da iluminação. Eles apontam limites do LED no que tange às respostas dessa fonte de luz ao dinamismo das linguagens da iluminação cênica, mais especificamente no âmbito do teatro, já que no âmbito da iluminação arquitetural já se encontraram soluções para colorir fachadas, por exemplo, e demais elementos estáticos. Pela lógica histórica, o tempo é o recurso que funciona para aperfeiçoar as soluções tecnológicas que nascem rudimentares e limitadas até que se encontrem mais lapidadas para maior proveito em determinada área de atuação, com base nas intenções de cada geração profissional que tenha oportunidade de interagir com os diversos estágios da tecnologia. Foi assim com a iluminação cênica quando na Idade Média se usavam velas e archotes até que estivessem disponíveis os lampiões a querosene e lâmpadas a gás no séc. 19. Com a conquista da eletricidade, uma família de lâmpadas de arco-voltaico e incandescentes aos poucos proporcionou recursos técnicos e artísticos como a dimerização, que ao lado do repertório crescente de tipos de refletores e jogos de cores possibilitaram mais plasticidade na linguagem artística do iluminador cênico que recita sua poesia no espaço. Eu acredito na iluminação cênica como mais um bom ingrediente, dentre as inúmeras formas que nós temos à disposição, para se compreender facetas do mundo da arte e da ciência na conexão entre sensações biológicas, realidade cultural e avanços tecnológicos.

Dos ritos medievais à indústria do entretenimento a iluminação cênica nasceu e se desenvolveu graças àqueles que descobriram como provocar a imaginação humana.

*Farlley Derze é Prof.do Instituto de Pós-Graduação; Dir. de Gestão e Pesquisa da empresa Jamile Tormann Ilum. Cênica e Arquitetural.; membro do Núcleo de Estética e Semiótica da UnB. Doutorando em Arquitetura. diretoria@jamiletormann.com