Depois eu que sou louco….

Eu tenho sangue de educador, sou descendente de educadores (e dos bons). Tenho um olhar sobre situações e uma leitura de tudo, especialmente textos, que não me permitem ficar apenas na superficialidade dos mesmos. Na verdade, as entrelinhas me interessam muito mais que os belos discursos… Nunca fiquei boiando na superfície de belas imagens ilustrativas de reportagens, artigos ou entrevistas, principalmente. Desde 2006 comecei a perceber algumas coisas por onde eu andava, conversava, navegava. Em 2007 a coisa toda começou a ficar mais séria e escancarada através do Orkut e foi quando senti a necessidade de documentar tudo aquilo através de meu blog. Eu dizia literalmente:

Gente prestem atenção nisso, leiam este, aquele e aquele outro post em tais comunidades do Orkut… Olhem o que estão escrevendo neste fórum de Arquitetura e naquele outro…

Acredito que, pela preguiça em ler mais de 300 comentários em cada um deles, preferiram me tirar de louco, alucinado, falar que eu estava drogado em excesso, que eu era um ET, que eu tinha que ser internado por loucura extrema entre outras coisas.

Talvez também porque sabiam que tinha o idiota aqui dando a cara à tapa e preferiram ficar confortavelmente sentados em seus sofás e poltronas, postando fotinhas de ambientes lindos e chiques, sem se preocupar com estas questões pensando que “isso não me atinge, não tenho nada a ver com isso”…

Ignoraram-me total e absolutamente. Riram de minha cara. Fizeram de meus alertas, chacotas.

Lembro-me claramente que na comunidade Arquitetura Brasil tinha um arquiteto chamado Luis Robério, uma arquiteta chamada Jéssica e outros mais que postaram com todas as letras:

“COM O CAU NÓS VAMOS COLOCAR OS DIZÁINERS DE INTERIORES EM EXTINÇÃO E ACABAREMOS TAMBÉM COM TODOS ESTES CURSINHOS RIDÍCULOS.”

Adriana Diniz, Maria Alice Müller, Ed Ramos e outros mais viram tudo isso acontecendo. Mas o resto preferiu nos ignorar. Foi esse o momento em que acabou gerando uma situação desconfortável entre eu e a Brunette Fraccarolli – que então era a presidente da ABD. Eu critiquei a falta de posicionamento da ABD sobre isso e ela entendeu como uma critica pessoal.

A ABD era uma associação formada essencialmente por arquitetos-decoradores, dirigida por estes. Era óbvio que não iriam fazer nada mesmo. Era uma ABD do simulacro, mascarada, de fachada e que só servia para lançar os nomes de seus presidentes e diretores no mercado como se fossem referencia por sua excelência projetual escondendo que, na verdade, só estavam ali usando a maquina da ABD.

De lá pra cá continuei gritando, denunciando e sempre sem respaldo de ninguém. Chegaram a falar que eu ODIAVA OS ARQUITETOS, criaram uma cultura em torno de mim como se eu quisesse guerra ou estivesse guerreando com eles, eu estivesse provocando eles, eu, eu, eu… o louco, o viajandão na maionese…

Lembro-me claramente também que ano passado participei de uma reunião do CLD (Campinas Lighting Design) e coloquei que a AsBAI ia fazer isso e, não me lembro quem, refutou veementemente esta idéia e falou que a AsBAI jamais faria ou apoiaria isso, por mais que eu mostrasse claramente nos discursos de seus ex e atual presidentes, bem como pelo histótico de notas lançadas por esta associação, que sim eles fariam. Optaram por acreditar mais no discurso de um dos presentes de que eu era o louco, alucinado, blablabla.. Optaram por não tomar atitude alguma imediata com relação a tudo isso. Agora digo: Valmir e membros do CLD, deveríamos sim ter montado a associação naquela mesma semana. Perdemos.

Agora estamos aqui com a Resolução n° 51 do CAU que praticamente exterminou-nos, designers de interiores/ambientes e os lighting designers.

Não sabe do que se trata isso? Ainda está pensando que estou falando mandarim, grego ou tailandês? Ainda, depois de mais de duas semanas disso tudo ter se tornado realidade continua desinformado? Esquente não, taí o link pra essa bagaça:

http://www.caubr.org.br/wp-content/uploads/2012/07/RES51-2013ATRIB-PRIVATIVAS20-RPO-1.pdf

cau3

Estamos, desde o dia 12 de julho, proibidos de trabalhar, pois esta resolução distorce o termo “arquitetura de interiores” com algo bem próximo de “design de interiores/ambientes” confundindo. Se alguém for pego trabalhando poderá legalmente ser autuado em flagrante, vai passar vergonha, será processado, poderá ser obrigado a pagar multa ou ser preso por exercício ilegal da profissão do arquiteto.

Eu, formado em curso superior em Design de Interiores, com especialização em Iluminação, estou proibido de exercer as minhas duas profissões.

A realidade é esta!

E assim como eu, vocês todos também estão.

A ABD atual (é muito diferente da anterior) formada por designers, está trabalhando sim e muito nesta gestão atual. A situação é tão grave que os próprios diretores sentiram que não será a existência da ABD que irá salvar suas peles. Não é porque eles são ABD que estarão imunes às autuações, multas ou prisões. Eles perceberam que precisam de nós assim como nós precisamos deles.

Este é o momento dos designers se unirem, lutarem pela mesma causa, sem melindres, egocentrismos, estrelismos, achismos… Sem se preocupar com quem manda mais, quem aparece mais, quem pode mais ou quem vai mais…

Nenhum de nós que está à frente trabalhando tentando reverter esta palhaçada toda e tentando esta união de forças dos profissionais está ganhando absolutamente nada com isso. Na verdade só estamos perdendo o tempo que deveríamos estar usando para atender nossos clientes, nosso tempo para projetar, nosso tempo para nos relacionarmos (prospects) entre varias outras coisas que são fundamentais para as nossas carreiras e que a maioria continua por este Brasil fazendo normalmente.

Pelo contrario, estamos no telefone, reuniões com juristas, advogados e outros, informando e berrando pelas redes sociais a absurda realidade em que nos encontramos.

Estou em Salvador participando como convidado do NDesign 2013. Pensei que conseguiria dormir e descansar um pouco, tomar um banho de mar. Mas todos os dias vou ate 4, 5 da madrugada trabalhando, pesquisando, lendo e interpretando leis, grudado no celular falando com profissionais do país inteiro, escrevendo, juntando informações e tantas outras coisas mais que mal estou conseguindo dormir. Não consegui sequer abrir um único projeto de clientes meus para trabalhar. E assim como eu, existe o pessoal da ABD e alguns outros profissionais que também estão passando pela mesma coisa.

A coisa não é brincadeira, não é uma chuvinha minha gente.

Mandaram uma tsunami em cima da gente, literalmente falando e precisamos agir e, antes de tudo, DA UNIÃO DE TODOS OS ESTUDANTES, PROFESSORES E PROFISSIONAIS DAS ÁREAS PARA LUTAR POR NOSSOS DIREITOS.

E não pense que isso não te atinge não. Você está tão ferrado quanto quanto nós. Depois não adianta chorar ou reclamar.

Só para finalizar vale sinalizar aqui:

Nós vivemos numa democracia multiprofissional ou numa ditadura arquitetônica?

Em todo o resto do mundo Arquitetura e Design de Interiores existem e coabitam o mesmo espaço. Contudo, convivem tranquilamente, pacificamente e, inclusive, são profissões que diariamente trabalham juntas sem se importar com quem manda mais, quem pode mais ou quem é mais.

O Brasil é o único país que permite este tipo de palhaçada.

4 comentários sobre “Depois eu que sou louco….

  1. É com orgulho que sustento meu título… algumas pessoas me falam: se denomine ‘arquiteta’, assim vc irá impor mais respeito… Não, sou Designer e é assim q as pessoas, clientes e/ou profissionais parceiros precisam me respeitar e me reconhecer… Vim de uma ESCOLA de formação altamente QUALIFICADA e tive professoras que me inspiraram a ser a profissional elogiada que sou hoje… Firme no propósito do reconhecimento mais que merecido.

  2. Olá Paulo!

    Ótimas observações!
    Sou formado no exterior, com um bacharel em design de interiores e acabo de voltar ao Brasil para atuar e me deparo com este absurdo.
    Lá fora, como você disse, as duas profissões se completam, e não faltam empregos para designers nos escritórios de arquitetura, pois arquiteto tem mais interesse em desenvolver o envelope da cosntrução e afins. No Brasil, quem não tem capacidade para fazer jus ao canudo de Arquiteto (com A maiúsculo), invade nossa área. Deve ser até deprimente para eles não conseguirem se posicionar no mercado para o que estudaram. Ó dó!
    Enfim, esse CAU é mesmo uma zona.

    Parabéns pelo “Grito”!

    Como posso ajudar?

  3. Olá Paulo,

    Li esta resolução há alguns dias e há impertinências na mesma. Fiz contato com o CREA que me informou, via fone, que esta é uma resolução e não uma lei. Assim não tem valor para descartar valores e garantias de demais instituições como o CREA.

    Obenho título de especilista em projetos de iluminação autorizado pelo Ministério da Educação e não há proibitivas em meu certificado. Ainda assim, acredito que conversas formais, via processo, sejam necessárias com a instituição CAU.

    Iniciei meu trabalho com iluminação nos EUA e não vejo nada igual a isso por lá. Sou associada da IES inclusive.

    Sou a favor de que para exercer qualquer profissão seja necessário teste de proficiência, pois atendo profissionais que carecem de conhecimento em iluminação.

    Abraços,
    Natalia

  4. Como arquiteta, que sou, a mais de 30 anos formada, concordo em numero, genero e grau, com você. Nunca precisamos brigar, nós, os arquitetos e designers de interior, pelo simples motivo das duas profissões se completarem. Li essa resolução, quando saiu e não entendi o porquê dela. O que realmente nos interessou foi proibir a assinatura de qualquer projeto apenas por engenheiros, isso sim, muito mais importante para nós, arquitetos, que perdemos projetos para pseudos projetistas donos de casa, que acham que sempre tiveram jeitinho para desenhar, fazem seu desenhinhos e engenheiros assinam por conta. Isso nos atinge diretamente e não os projetos de interior, que navegam junto..

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