AsBAI e reserva ilegal de mercado

Em meu artigo final da pós em iluminação, um dos assuntos que retratei foi a insistente tentativa de fechamento da área de LD para arquitetos. Na verdade trata-se de uma reserva de mercado ilegal perante o Código Civil e antiética com o mercado. Porém não imaginava na época que o caso estava tão sério e grave. Pena que eu não tinha conhecimento destes novos passos pois teria sido muito mais ácido em meu artigo. Agora, conhecendo-os faço questão de publicar na íntegra em todos os cantos possíveis e imaginaveis o meu artigo¹.

Em meio a tantos discursos alienados e corporativistas de alguns ex-diretores, percebo que a “nova geração” continua com a mesma cabeça oca, com os mesmos pensamentos idiotizados baseados numa lógica corbusiana insustentável para os dias atuais.

Rafael Leão – da “nova geração” – assumiu a presidência em Janeiro/2012. Sob o discurso de renovação e revisão de alguns pontos fundamentais dentro da associação percebe-se que o principal ponto que deveria ser revisto continua na mesma: a reserva ilegal de mercado para arquitetos.

Em sua entrevista à revista Lume Arquitetura (edição atual), Rafael reafirma tudo o que já foi dito pelas diretorias anteriores. É o mesmo blábláblá de sempre sem qualquer fundamentação teórica consistente. Baseiam-se em meros achismos, suposições e, principalmente, em corporativismos demonstrando que esta associação está muito aquém do que o mercado realmente necessita e merece, especialmente no quesito seriedade bem como desconhece completamente a formação acadêmico/prática de outros profissionais que atuam no segumento.

Apesar de insistirem no discurso de que seguem os padrões do PLDA e do IES, percebe-se que essa insistente tentativa de fechar o mercado desmente claramente isso.

Segundo ele,

 “(…) a associação é democrática(…) Os interesses da associação são os mesmos dos profissionais de iluminação e não apenas de seus fundadores.”

Mentira descarada! Conheço vários profissionais – inclusive arquitetos – que não concordam com determinadas posturas da AsBAI e preferem manter-se distantes. Não concordam com a reserva de mercado, não concordam com o discurso ufanista, e não conseguem um canal de comunicação decente com a associação.

Na própria entrevista ele coloca sobre cursos e palestras em faculdades de arquitetura. Porque não estender também às faculdades de Design de Interiores/Ambientes, engenharia e outros mais? Aliás, porque aceitar desenhistas industriais e não aceitar designers de interiores/ambientes, o pessoal da cênica entre tantos outros profissionais de outras áreas que trabalham tão bem – ou até melhor que muitos membros – com a luz?

Ele alega que a regulamentação profissional do LD é algo muito complexo e desnecessário. Claro! Afinal na sequencia ele coloca que já estão em contato com o CAU, pois é de extrema importância que profissão de “arquitetura de iluminação” seja formalmente reconhecida por este conselho e venha a fazer parte do Colégio Brasileiro de Arquitetos.

Isso só confirma o seguinte: eles sabem que num Projeto de Lei (PL) de regulamentação profissional no Congresso Nacional (CN), a tentativa estúpida de fechamento do mercado (reserva ilegal de mercado) para os arquitetos será o motivo claro para que o CN rejeite o projeto ao perceber que muitos outros profissionais, não arquitetos, e que desenvolvem projetos até melhores que a maioria dos membros e associados da AsBAI ficarão de fora e não mais poderão atuar. As comissões do CN irão rejeitar de pronto isso e nem mesmo o lobby² que os arquitetos tem lá dentro serão capazes de superar isso. E, caso o lobby vença, irá acontecer o mesmo que aconteceu com o CAU: o Gabinete da Presidência não irá sancionar e o projeto terá de refazer todo o trajeto com as alterações especificadas, especialmente a inclusão de outros profissionais. Então é preferível ir pelos bastidores na tentativa desse ato estúpido e desrespeitoso não só com os diversos profissionais, mas especialmente com o mercado.

Eles tentam fazer isso porém, ele mesmo (e outros diretores e membros) afirma que em sua formação em arquitetura não houve um conhecimento aprofundado na área de iluminação – como em qualquer outro curso de arquitetura – e assume que teve de pesquisar por fora depois de formado para entender mais sobre iluminação.

Também não posso deixar de citar que a exigência de mestrado ou doutorado ligados à arquitetura é algo idiotizado já que é sabido que estas duas pós-graduações são destinadas àqueles profissionais que visam atuar no meio acadêmico e não no mercado. Para o mercado as especializações e MBAs são mais que suficientes e eficientes que os mestrados e doutorados por serem mais práticos e não excessivamente teóricos. É apenas mais uma fundamentação ridícula na tentativa de reservar o mercado já que também é sabido que dificilmente um Designer de Interiores/Ambientes ou alguém vindo da área Cênica consegue entrar num mestrado ou Doutorado em arquitetura, ao menos aqui no Brasil estupidamente corporativista e melindroso.

Outro ponto interessante na entrevista é que ele prega que os profissionais ligados à AsBAI são livres de conflitos de interesse (ligação direta com a indústria) porém não é bem isso que tenho visto. São vários os membros desta associação que estão descaradamente ligados a uma ou outra indústria, fato que retrato em minha mais recente coluna da revista Lume Arquitetura.

Sou associado AsBAI desde 2005. Recebi minha carta de aprovação de associação no dia de minha formatura no curso de Design de Interiores (não me esqueço dessa data). De lá para cá se recebi cinco e-mails desta associação até hoje foi muito. E, pelo que me lembro, foram apenas relativos à anuidade.  Nesse tempo houve um recadastramento dos associados. Não recebi qualquer notificação relativa a isso. Mas recebi sim uma cobrança pelo atraso do pagamento de uma parcela da anuidade da qual eu não tinha recebido o referido boleto. Entrei em contato para resolver a situação e descobri sobre o recadastramento e que o mesmo já tinha terminado o prazo. Solicitei então como fazê-lo e houve uma lacuna de mais de 3 meses para solução. Ao tentar fazer meu recadastramento, vários erros de sistema ocorreram e não consegui efetua-lo e tive de fazê-lo por e-mail (tenho todas as provas aqui em meu back-up).

Hoje, ao observar o site “remodelado e renovado” percebi que fui rebaixado a mero assinante e que meu cadastro consta como região sudeste!!! Mas o pior foi observar os tais aspirantes, e perceber vários profissionais com menos de 1 ano de mercado (nem deu tempo de fazer uma especialização após a formatura), muitos outros com até 3 anos de mercado, 5 anos de mercado…

E eu, um mero assinante… WOW!!!!!

Não há qualquer diálogo ou seriedade por parte da AsBAI com seus associados que pagam a anuidade.

É difícil acreditar numa associação que age nos bastidores visando apenas o benefício próprio e de poucos profissionais. Mais difícil ainda acreditar quando percebemos que suas ações são meramente teatrais na fachada, mas essencialmente danosas e antiéticas com a sociedade e o mercado.

Falta muita ética à AsBAI. Aliás, isso é um ponto que acredito que esta associação desconhece completamente apesar de seu código de ética, feito apenas pra inglês ver.

Portanto, vamos parar de palhaçada e de agir como criança mimada e melindrosa com medo de perder o doce e agir como adultos sérios e, principalmente honestos?
Pretendo que este post abra um canal de diálogo com esta associação onde a dialética prevaleça baseada na seriedade, honestidade e transparência. Mas, se houver retaliação com a minha expulsão da mesma eu não me importo. Afinal este ato somente estará confirmando o que eu denuncio aqui além de ser um dinheirinho a mais que economizarei anualmente.

Profissionais de iluminação e LD fiquem atentos a mais este golpe que está sendo arquitetado (não peço desculpas pelo trocadilho) nos bastidores.

¹ Interessante notar que a minha produção intelectual, especialmente aqui neste blog está muito acima dos tais “mestres e dotôres”, exigência da AsBAI para ser membro…

² Importante lembrar que o atual PL de regulamentação do Design está tramitando no CN porém com a exclusão da área de Interiores/Ambientes. Ernesto harsi, um dos autores do texto original, alega que isso foi feito para evitar confronto com os arquitetos – e o consequente arquivamento deste novo PL – por causa desta área. Resalto ainda que quando me refiro a “arquitetos” não estou generalizando e sim mencionando aqueles ligados à associações sindicatos e conselhos e suas diretorias que são os que geram estes problemas.

6 comentários sobre “AsBAI e reserva ilegal de mercado

  1. Pingback: Retrospectiva 2012 | Design: Ações e Críticas

  2. Pingback: A “bendita” e mal intencionada reserva de mercado | Design: Ações e Críticas

  3. Oi Paulo! Acabei de descobrir seu blog e ele foi decisivo para que eu tente fazer design de interiores. Tentei o vestibular da UEMG em 2006 e depois desisti, pensando que a profissão não é tão reconhecida e perde pra arquitetura. O que me desanima é não ter noção de desenho, o que é fundamental na área. Tem um curso de desenho de arquitetura que dura 1 semestre, e penso que dá uma base pra chegar mais preparada no curso de desing. Vc acha que esse curso ´”preparatório” vale a pena ou existe outro mais eficaz? Um abraço e continue com esse blog maravilhoso! Parabéns.

  4. Olá Paulo. Pra começar: PARABÉNS. Assim como as asbai se julga no direito de decidir quais sao seus valores e julgar o mérito de quem deve pertencer a tal associação, você e qualquer brasileiro tem o direito de decidir quais são seus valores bem como julgar o mérito de pertencer ou não a determinado grupo. A asbai é um grupo e como associação podem decidir quem entra e associação quem não entra. Eu, por exemplo, decidiria e decidi desde sempre não entrar, prefiro a Associação Brasileira de Iluminação, pelos valores sociais sem restrições de qualquer natureza ou interesses, bem como por ser despretensiosa perante os demais brasileiros que já demonstram há muito tempo sua competência no ramo da iluminação. Estou tentando te dizer que você não devia se indignar pela classificação que recebeu na asbai, mas tão-somente, buscar associações menos contraditórias. Você pode checar no site da asbai que para ser membro é exigida a graduação em arquitetura. Contudo, conheço membros que não são arquitetos e membros que sequer possuem graduação em qualquer área. Esse último caso eu tenho arquivado em meus arquivos já que minha prática como historiador na área de iluminação localizei publicações em revistas onde o entrevistado, membro da asbai, justifica o fato de não ter feito uma graduação. Ou seja, você não deve liberar suas energias para ser reconhecimento em uma associação cujos valores e exigências guardam contradições como a citada acima sobre as condições exigidas para ser classificado como um membro. No tocante à reserva de mercado, pense na possibilidade de ser apenas uma vontade. Entre a vontade e a realidade há um abismo. Schopenhauer, filósofo que dispensa apresentação, já explicou situações como essas que te incomodaram em seu livro O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO. A realidade é bem diferente da vontade seja lá de quem for… as pessoas são livres para sentir vontade. O fato é que o mercado funciona a todo vapor e é independente da asbai. Já funcionava muito antes de tal associação existir e vai continuar funcionando independente das vontades particulares. Se a asbai tivesse, hipoteticamente (bem hipoteticamente) algum poder para restringir a atuação no mercado apenas para arquitetos, seria necessário admitir a exclusão neste mercado de nomes como Peter Gasper, que não é arquiteto… ou seja alguns dos próprios membros da referida associação. Fique despreocupado, especialmente, porque tal poder não existe. A própria “profissão” de “Lighting Design” não existe como profissão regulamentada. Fique tranquilo. Não é regulamentada em nenhuma parte do planeta. Você já ouviu falar de Roger Narboni? Ele não é arquiteto: ele é engenheiro eletrônico. É francês, é genial (como muitos brasileiros não arquitetos) e criou em 1992 o “l’urbanisme lumière”. Você precisa conhecer o trabalho desse não-arquiteto, é fantástico, é criterioso, é saudável para o ofício de projetar iluminação. Ele prefere se denominar “concepteur lumière” em vez de se render ao americanismo…”lighting designer”…. aliás… fique tranquilo, pois não vejo a menor possibilidade técnica e legal de se regulamentar no Brasil uma “profissão” com uma nomenclatura exclusivamente estrangeira… ou… que se regulamente no Brasil a profissão de “architect”. Paulo, relaxe… mantenha distância de ideias retrógradas defendidas por este ou aquele grupo… a “vontade de poder” já foi um tema bastante escrutinado por filósofos como Schpenhaer, Nietzsche, Foucault … e nem sempre alguns profissionais têm tempo para conhecer a posição de muitos pensadores do passado (e do presente) que já denunciaram as falácias fruto de ansiedade e insegurança diante de um mundo tão rico em diversidade humana, de onde emergem (queriam ou não queiram) pessoas geniais que desafiam os pensamento e as ideias afinadas com as antigas oligarquias, já amplamente superadas pela beleza das novas profissões, das novas mentalidades, das novas posturas que o direito reserva a todos nós brasileiros. Feudos existem em toda parte. Escolha o mundo aberto, o mundo ventilado, o mundo sincrético, o mundo que transforma, o mundo que anda pra frente, o mundo livre.
    Farlley Derze, Professor, Brasília-DF, 22 de junho de 2012.

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