Homo Luminus

E a história social da iluminação
Por Farlley Derze

Era uma vez o homo erectus, ancestral nômade que para deslocar-se dependia da luz natural para se orientar no espaço (sol, luz, estrelas). Ele soube aproveitar o fogo espontâneo da natureza como fonte de luz e, mais tarde, o produziu artificialmente. Fez iluminação com um repertório tecnológico que a certa altura compunha-se de pedras, madeira, argila cozida nas fogueiras, mechas feitas de pelo animal ou vegetais ressecados (eram os pavios), e gordura animal ou óleos vegetais como combustíveis para as chamas de suas lâmpadas.

A relação do homem com a luz me faz pensar na existência do que vou chamar aqui de “História Social da Iluminação”. Com a evolução das espécies, do homo erectus ao homo academicus, deu-se uma seleção artificial dos materiais empregados para iluminação. No mundo produtivo da luz, entrelaçaram-se o mundo material (dos objetos) e o mundo imaterial (idéias, crenças, valores e concepções) onde fatores como pesquisas, disponibilidade geográfica de recursos energéticos e capacidade de gestão dos interesses políticos, econômicos e sociais determinaram o salto tecnológico dos países europeus, em termos de evolução da iluminação artificial, ao longo da história mundial. Tal salto, graças também à iluminação natural – no verão europeu o pôr-do-sol ocorre por volta das 22 horas na maioria dos países – que permitiu mais tempo para atividades como agricultura, transportes e trocas de informação. Mais tempo de luz, mais tempo para os negócios.

Os europeus aventuraram-se em experiências com gases e eletricidade em meados do século XVIII: Benjamin Franklin (americano), embaixador dos EUA na França, pescou a eletricidade com uma pipa em junho de 1752, numa tempestade do verão europeu; Luigi Galvani, médico italiano, professor de anatomia, em 1780 surpreendeu-se ao ver a pata de uma rã morta mexer-se ao encostar nela seu bisturi “secretamente” carregado de eletrostática; a eletricidade foi armazenada numa pilha inventada em 1789 pelo professor de física italiano, Alessandro Volta, quando resolveu fazer um “sanduíche elétrico” com sua língua onde pôs, acima e abaixo dela, discos metálicos que a fizeram “formigar” (fluxo de elétrons) quando as bordas dos discos foram postas em contato (no interior de sua boca). Em 1802 o químico inglês Sir Humphry Davy demonstrou que filamentos de platina incandesciam-se com a passagem da corrente elétrica armazenada e, em 1808, inventou a primeira lâmpada elétrica a arco voltaico – a luz foi engarrafada. A Europa era a dona de uma revolução industrial, científica e social. Conquistaram-se novas formas de iluminação artificial no início do século XIX. Consequência: as pessoas ganharam os passeios noturnos, momentos de leitura, encontros para troca de idéias, mas também novos horários na jornada de trabalho.

Outra consequência social dessa História Social da Iluminação se deu quando na disputa pela distribuição da energia elétrica Thomas Edison, para defender sua Corrente Contínua, idealizou com um dentista a cadeira elétrica, desde que nutrida por Corrente Alternada, para difamá-la já que essa era defendida pelo seu rival Nikola Tesla.
A História Social da Iluminação oferece uma oportunidade para se conhecer a evolução da mentalidade humana no que se refere à relação funcional e conceitual que se deu (e se dá) entre o homem, a iluminação e seu modo de vida.
      Olhar o passado é útil para não se repetir equívocos, mas também para se iluminar o futuro de uma sociedade estimulada por novas idéias, conceitos e práticas. No século XXI, viva o homo luminus!

Farlley Derze é historiador, mestre em Concepções e Vivências pela Universidade de Brasília (UnB), professor de História da Iluminação do Instituto de Pós-Graduação (IPOG) e coordenador e pesquisador do Núcleo de História da Associação Brasileira de Iluminação (ABIL). (historia@abil.org.br / historia@iluminacao.arq.br)

fonte: Lume Arquitetura

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